Ana vive o parto como um fenômeno de transcendência. Reminiscências perdidas na penumbra do inconsciente emergem em fluxo de imagens, evocando caleidoscópio de pessoas, situações, objetos e sentimentos adormecidos, enquanto seu corpo se impõe no processo fisiológico que exige imanência. Nessa alternância entre as camadas de memória e o parto que acontece sem controle, o leitor conhece a mulher que Ana está prestes a abandonar. "Sente a mão de Sérgio segurando a sua. A mão dele está fria. Desistiu da anestesia. Ela sabe, agora: vou morrer. O intervalo entre as dores é mais curto que sua respiração. Se conseguisse formular a frase, seria: vou morrer por esquecer de respirar. A única luz clara na sua mente é que está perto de acabar, a dor. Sabe que o limite está ali, diante dela. Sente o peso do corpo da menina pressionando os ossos da pelve. É dominada pelo pensamento de que já irá conhecê-la, sua carne e espelho, e então tudo estará acabado. Fecha os olhos com força, tem medo das trevas, de sua fraqueza, mas já desistiu de qualquer fuga, já aceitou toda a dor, e não pode ser pior, essa é sua força, sabe o caminho do abismo e marcha a passos largos, sem distrações, tédio, ou horror, apenas aceitando esse momento de vida vivida consumada como matéria de sonho. "
O Parto
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