Num mundo pré-apocaliptico, uma criança sem nome acorda em pânico quando tem pela primeira vez consciência de que está a sonhar. Delimitada pelas limites da herdade onde vive e serve, este é o mundo de onde a sua existência se tenta desesperadamente libertar . Ele não passa de um criado, mas apesar disto, as questões sobre a existência, a sua e a de tudo o que o rodeia, atingem-no constantemente. À medida que cresce, o mundo que conhece cresce com ele. Ele vive, ele morre, e no horizonte do fim do mundo, nasce-lhe a certeza de que há uma existência da qual a dele depende, e para onde tudo acaba por convergir.
Um retrato abstracto sobre a existência e a decadência do mundo. Chato às vezes, pretensioso quase sempre, raramente genial. É possível que este livro nunca seja considerado um clássico da literatura, mas a minha mãe gostou muito.
Excertos:
"A minha mãe existia, mas já não existia enquanto minha mãe. Continuava a ser a minha mãe, mas já não existia enquanto criada do senhor marquês porque já não existia senhor marquês. Existia. Apenas. Nada mais. E na verdade, pela primeira vez, existia realmente. A menina regina existia, e a sua existência emanava e propagava-se de tal forma que tudo existia dentro dela e ela existia dentro de todas as coisas. A menina regina existia, e no seu existir havia tudo o que importava. Já não era a filha do senhor marquês porque já não existia senhor marquês. Era a filha do senhor marques, mas apesar disto, continuava a ser a menina regina. Eu existia. Eu existia porque tinha noção da minha existência. Existia porque conseguia questionar esta própria existência, e em alguns momentos, negá-la convictamente."
"Existimos. Creio que durante muito tempo apenas existimos. Somente. E tanto trabalho que dá existir. Creio que só neste tempo aprendi o que realmente era existir porque só então dei realmente pela minha existência. Foi como se até então estivesse demasiado preocupado com o que me rodeava, com o mundo que existia fora de mim: com a herdade, com a vila, com as páginas da enciclopédia que lia com a menina regina. Andava distraído com o tanto que existia longe de mim, com o que já existiu há muitos anos e deixou de existir, que esqueci-me do que havia dentro de mim, em cada instante, e tudo o que queria transbordar."
"Arrasto-o. Levo-o de volta pelas ruas. De vez em quando tenho que parar para atirar pedras a algum esfomeado que sente o cheiro de carne ainda quente. Tudo parece convergir para mim e para os momentos que vou gerando. As sombras tocam-me. Uma sombra esconde os nossos corpos que se juntam num só. Há um regressar ao princípio. Ao início da minha existência. À porta da casa do oleiro, levitando sobre o ondular do luar, a menina regina espera-nos. Não fica admirada ao ver-me arrastar o cadáver do senhor marques. Ela já sabia que o senhor marques estava morto, e eu, quando lhe consegui ver os olhos que contrastavam na escuridão tirana, soube que a minha mãe também tinha morrido."
?Um gajo gigantesco e encapuçado agarrou-me e encaixou-me o pescoço numa guilhotina. Não me importei. Ergueram-se palmas vitoriosas e urros entusiásticos. Não me importei. A lâmina deslizou sobre um som corrido cada vez mais próximo. Não me importei. A lâmina tocou-me a pele da nuca. Não me importei. A lâmina cortou-me a pele, cortou-me a carne, o osso, tudo. Não me importei. A minha cabeça resvalou para dentro de um cesto enquanto a multidão atingia um novo clímax. Não me importei. A minha cabeça deixou de estar ligada ao meu corpo e passou a estar separada por um esguichar de sangue interminável. Não me importei. Atiraram o meu corpo para uma fossa que transbordava com tantos outros. Não me importei. Enfiaram a minha cabeça num pau hasteado e deixaram-na estar à vista de todos. Não me importei. Morri.
Não me importei.?
Um retrato abstracto sobre a existência e a decadência do mundo. Chato às vezes, pretensioso quase sempre, raramente genial. É possível que este livro nunca seja considerado um clássico da literatura, mas a minha mãe gostou muito.
Excertos:
"A minha mãe existia, mas já não existia enquanto minha mãe. Continuava a ser a minha mãe, mas já não existia enquanto criada do senhor marquês porque já não existia senhor marquês. Existia. Apenas. Nada mais. E na verdade, pela primeira vez, existia realmente. A menina regina existia, e a sua existência emanava e propagava-se de tal forma que tudo existia dentro dela e ela existia dentro de todas as coisas. A menina regina existia, e no seu existir havia tudo o que importava. Já não era a filha do senhor marquês porque já não existia senhor marquês. Era a filha do senhor marques, mas apesar disto, continuava a ser a menina regina. Eu existia. Eu existia porque tinha noção da minha existência. Existia porque conseguia questionar esta própria existência, e em alguns momentos, negá-la convictamente."
"Existimos. Creio que durante muito tempo apenas existimos. Somente. E tanto trabalho que dá existir. Creio que só neste tempo aprendi o que realmente era existir porque só então dei realmente pela minha existência. Foi como se até então estivesse demasiado preocupado com o que me rodeava, com o mundo que existia fora de mim: com a herdade, com a vila, com as páginas da enciclopédia que lia com a menina regina. Andava distraído com o tanto que existia longe de mim, com o que já existiu há muitos anos e deixou de existir, que esqueci-me do que havia dentro de mim, em cada instante, e tudo o que queria transbordar."
"Arrasto-o. Levo-o de volta pelas ruas. De vez em quando tenho que parar para atirar pedras a algum esfomeado que sente o cheiro de carne ainda quente. Tudo parece convergir para mim e para os momentos que vou gerando. As sombras tocam-me. Uma sombra esconde os nossos corpos que se juntam num só. Há um regressar ao princípio. Ao início da minha existência. À porta da casa do oleiro, levitando sobre o ondular do luar, a menina regina espera-nos. Não fica admirada ao ver-me arrastar o cadáver do senhor marques. Ela já sabia que o senhor marques estava morto, e eu, quando lhe consegui ver os olhos que contrastavam na escuridão tirana, soube que a minha mãe também tinha morrido."
?Um gajo gigantesco e encapuçado agarrou-me e encaixou-me o pescoço numa guilhotina. Não me importei. Ergueram-se palmas vitoriosas e urros entusiásticos. Não me importei. A lâmina deslizou sobre um som corrido cada vez mais próximo. Não me importei. A lâmina tocou-me a pele da nuca. Não me importei. A lâmina cortou-me a pele, cortou-me a carne, o osso, tudo. Não me importei. A minha cabeça resvalou para dentro de um cesto enquanto a multidão atingia um novo clímax. Não me importei. A minha cabeça deixou de estar ligada ao meu corpo e passou a estar separada por um esguichar de sangue interminável. Não me importei. Atiraram o meu corpo para uma fossa que transbordava com tantos outros. Não me importei. Enfiaram a minha cabeça num pau hasteado e deixaram-na estar à vista de todos. Não me importei. Morri.
Não me importei.?