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    Juizo verdadeiro sobre a carta contra os

    Por MORGANTI, BENTO

    Sobre

    Meu amigo, e Senhor, satisfazendo á sua recomendaçaõ de lhe enviar os papeis coriosos, que sahirem nesta Cidade mais bem compostos, e recebidos; remetto a v. m. esse que a semana passada se publicou com o titulo de Sustos da Vida nos Perigos da Cura, taõ agradavel aos curiosos, como aos medicos odiozo. E ainda que sei, que v. m. naõ he muito inclinado a obras satyricas, com tudo me parece, lhe naõ desagradará, pelo que tem de discreta. Eu desejara que v. m. agora se achasse nesta Cidade para ouvir os pregoens dos cegos; pois naõ contentes com o primeiro titulo, para dar mais clara noticia da obra, apregoaõ; Carta contra os Medicos, Cirurgioens, e Boticarios (verdade he, que naõ lhe levantaõ nenhum testemunho){4} e por fazer pirraça aos mesmos servindose dos olhos dos moços, pois elles naõ pódem ser testemunhas de vista, ás portas de Boticarios, e na passagem dos Medicos, e Cirurgioens levantàõ com mais forte, e duplicada vós o pregaõ da sua fazenda, alguns sugeitos tenho ouvido louvar muito este papel de discreto, e util á republica, para que se desenganem com estes homicidas disfarçados. Eu porèm com juizo indiferente, espero pelo seu parecer, para que instruindo-me como costuma, eu possa julgar com acerto. Deos guarde a v. m. c.{5} RESPOSTA. Meu amigo, recebi a sua carta sempre estimavel, como sua e juntamente a obra, que me remette, e lhe recomendo agora me mande todos os papeis, que nesta Cidade se publicarem, porque quando nem todos sirvaõ para instruçaõ, seraõ ao menos para divertimento do animo, e antidoto da ociozidade. He já antigo em V. m. querer ouvir o meu parecer nestas materias literarias, em que eu naõ tenho voto, julgando que o excederei no bom gosto, quanto o excedo nos annos. Engana-se V. m. pois na sua pouca idade tem aprendido mais estudo, do que eu vivendo. Se comtudo dezeja ouvir-me lhe digo: que faço muito diverso conceito desta obra, do que esses curiosos fazem. Eu confeço, que quando acabei de a ler me lembrou o novo cazo da consciencia, excogitado pela jocosa agudeza do Doutissimo P. Feyjó: pelo qual ficaõ obrigados restituir aos compradores o dinheiro aquelles escriptores, que com titulos especiozos atrahem os curiozos á compra das obras{6} inuteis. Nesta obrigaçaõ julguei eu incurso ao autor da carta pois quem haverá, que ouvindo o pompozo titulo de Surtos da Vida nos Perigos da cura, naõ espere alguma obra erudíta, e composiçaõ discreta? Pois gaste o seu dinheiro, compre, e leia; e nada mais achará, que huma carta extensissima, ou satyra prolongada, com alguns contos de velhas, que por vulgares já naõ recreaõ ao leitor: tudo afim de injuriar os nobres professores da medicina. Por isso os cégos, vendo isto, trocáraõ o titulo proposto no frontespicio em o da Carta contra os Medicos, Cirurgioens, e Boticarios. E se me consultassem, ainda eu lhe ensinaria outro pregaõ mais proprio, e mais bonito. Ora já que falamos nisto; eu entendo, que naõ he precizo ver a obra mas basta ouvir os cegos, para formar della o devido conceito. Tantas legoas distante me parece, que me está horrorizando os ouvidos o escandaloso ecco deste pregaõ. E que homem de juizo haverá, a quem naõ escandalize esta voz pelas ruas publicas. No capitulo 38 de Ecclesiastico nos manda Deos honrar muito aos Medicos, dizendo; que a mesma ciencia,{7} que professaõ, os havia de exaltar, e fazer recomendaveis na presença dos grandes. A ley os enobrece, Deos os recomenda, e quem diséra, que se haviaõ de ver publicamente offendidos, e pela gente vulgar com vozes ultrajados! Tudo he effeito de huma paixaõ cega
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