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    Meus desacontecimentos : a história da minha vida com as palavras

    Por Eliane Brum
    Existem 11 citações disponíveis para Meus desacontecimentos : a história da minha vida com as palavras

    Sobre

    A premiada jornalista Eliane Brum revela suas mais profundas memórias de infância. De quantos nascimentos e mortes se constitui uma vida? De quantos partos uma pessoa precisa para nascer? Com quantas palavras se faz um corpo? A menina que flertava com a morte conta como foi salva pela palavra escrita. Em cada página, personagens fantasticamente reais incorporam-se: a irmã morta, que era a mais viva entre todos; a avó, comedida em tudo, menos na imaginação; a família que precisou de uma perna fantasma para andar no novo mundo; as tias que viravam flores para não murchar. Como repórter e escritora, Eliane sempre questionou a forma como cada um inventa uma vida e cria sentido para seus dias. Em Meus desacontecimentos, conta como ela mesma se arrancou do silêncio para virar narrativa. Neste itinerário de dentro para dentro, a autora percorre-se com delicadeza, mas sem pudor. Oferece-se ao leitor nua. Quase em sacrifício.
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    Citações de Meus desacontecimentos : a história da minha vida com as palavras

    Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra.

    Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.

    Há realidades que só a ficção suporta. Precisam ser inventadas para ser contadas.

    A bem da verdade, o alívio era muito maior do que o fracasso.

    Aprendi ali que ninguém é substituível. Alguns se tornam substituíveis ao se deixar reduzir a apertador de parafusos da máquina do mundo. Alienam-se do seu mistério, esquecem-se de que cada um é arranjo único e irrepetível na vastidão do universo.

    Mas Ijuí era uma cidade pequena. Entre mim e a menina de rua criou-se uma relação de espelho. Nós acompanhávamos a vida uma da outra sem jamais termos nos falado novamente. Apenas nos cruzando pelas esquinas do centro. E espiando uma a outra, de longe. Ao testemunhar seu destino, ano após ano, e compará-lo ao meu, compreendi o que é desigualdade. A mais abjeta das desigualdades, a de origem. Compreendi que ela tinha me roubado 7 cruzeiros e a inocência, mas que a nossa queda de braço ela já tinha perdido ao nascer.  Em nossa relação silenciosa e secreta, no início eu sentia por ela um ódio intestino. A menina encarnava a minha humilhação, os meus temores mais íntimos e a causa dos desmaios que passei a ter, a cada vez que via uma agulha, e dos quais só consegui me livrar depois de adulta. Mas sempre que nos cruzávamos ela estava pior. E seu olhar agora não era mais desafiador nem jocoso, mas envergonhado e acuado. Eu crescia protegida – e ela era triturada pela rua.  Na última vez que a vi nós tínhamos uns quinze anos. Eu usava uma longa trança acobreada e era bonita. Como Chapeuzinho Vermelho, levava um doce para a minha avó, que morava perto da praça. Mas o lobo mau estava com ela. Era início da noite de um dia de semana. Ela estava numa esquina, menos vestida do que no dia em que nos conhecemos, e um homem velho ria e passava a mão no seu peito. Eu olhei para ela, e ela baixou os olhos.  Foi nosso último encontro. Eu não sei o seu nome, e é grande a probabilidade de que ela esteja morta. Mulheres de classe média como eu tentam aprender a envelhecer. Mulheres como ela tentam não morrer antes dos vinte. Pode ser que hoje ela só viva em mim – e a memória seja a única vida que eu possa lhe dar.  Naquele momento, aos nove anos, os meninos de rua me enfiaram, à força, na pele deles. Ao me ameaçarem de morte com seringas e agulhas, eu vivi o desamparo não de um, mas de todos os seus dias. Na rua, diante de uma casa onde eu não podia entrar, sem uma família que me pro

    Andava pelo mundo em passinhos de feltro, pedindo desculpas por existir. Comedida em tudo, só esbanjava suspiros. Mas, quando acreditava que ninguém estava olhando, deixava escapar pela esquina dos olhos um desejo agoniado por um mundo mais largo. Morreu sem conseguir tornar-se o lado B de si mesma.

    Aprendi ali que ninguém é substituível. Alguns se tornam substituíveis ao se deixar reduzir a apertador de parafusos da máquina do mundo. Alienam-se do seu mistério, esquecem-se de que cada um é arranjo único e irrepetível na vastidão do universo. Quando a alma estala fingem não saber de onde vem a dor. Então engolem a última droga da indústria farmacêutica para silenciar suas porções ainda vivas. Teriam mais chance se ousassem se apropriar de sua singularidade. E se tornassem o que são. Para se perder logo adiante e se buscar mais uma vez, já que ser é também a experiência de não ser.

    para a banalidade do mal, como nos mostrou Hannah Arendt, sempre bastou a ação de alguns e a omissão de todos os outros.

    Acredito que só alcançamos o extraordinário do que somos ao sermos capazes de alcançar o extraordinário que é o outro.

    Escolhi viver sem fronteiras definidas, nações não me interessam, limites só me importam os da ética. Tenho um coração andarilho, um corpo mutante, uma mente transgênera. Sou irmã, mãe, filha, homem, cúmplice, bicho bicho, bicho humano, árvore, erva-daninha, pedra, rio. Vírus. Sou todas as cores, todos os sexos, todas as línguas. Sou palavra em palavras.

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