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    Samsara: Vidas em uma noite abafada

    Por Thomás Rosa Pinto de Oliveira

    Sobre

    Vidas se cruzam, se entrelaçam, se ferem e se perdem em uma noite abafada de uma cidade sufocante. Os personagens compõem um mosaico urbano e visceral no qual drogas, saliva, paixão, sangue, literatura e música servem para desviar a atenção de uma angústia silenciosa, mas sempre à espreita. Uma tensão constante percorre a história como se os limites do prazer e do desespero estivessem sempre prestes a serem rompidos.

    “Quem perde uma filha e uma esposa, como é que dorme a cada noite? E depois? O que resta de si, além de medo e ódio? Eu estou tão cansado, tão perdido e esta noite só começou. Parece que nunca vou mais conseguir sair dela. Estou aqui, tentando suportar, mas minha mente e corpo estão cada vez mais cansados. De que vale qualquer coisa que eu já tenha feito perto da tragédia real de um casal cremado vivo ou de um menino que se torna monstro... que limite é esse que cruzei sem perceber? Que angústia é essa que trava a minha garganta?”

    (...)

    “Dançamos com os rostos bem perto, as bocas quase se tocando. A batida é quebrada, não muito rápida. Joana também quebra os quadris no ritmo exato, joga os ombros, vira o rosto. Ela se faz essencial, quase um instrumento a mais na música. Vendo-a dançar tão perfeitamente integrada ao som, me pergunto como a música existia antes de Joana.”

    (...)

    "Que início de noite quente! Na verdade é um final de tarde, já que ainda tem um resto de luz. Essa luz bem que podia continuar e continuar... mas não! Logo, logo, virão as luzes falsas tentando disfarçar nossa miséria. Mas não a minha! A minha miséria se faz presente nas noites, ainda mais em uma noite abafada como a de hoje; o ar parado gruda no corpo e vira suor, minha cabeça não funciona direito com esse calor. Essas ruas infestadas de carros e pessoas... tanta pressa, tanta raiva. Todo mundo parece ter raiva de todo mundo, a gente vive uma guerra velada, a gente vive muitas guerras. Se não estivesse tão abafado, acho que todos teriam menos ódio. Mas que besteira! Quanto mal já foi feito em dias frescos! Tenho que parar de pensar, porque pensar agora, sabendo que uma noite deste tipo está chegando, vai resultar em pensamentos como os que eu já estava começando a parir."
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