Olho para o lado e vejo as horas. Faltam cinco minutos. Ainda não chegou a hora de ela vir, a minha hora. É nestes momentos que ficamos a saber quem somos. Alguém bate: uma, duas, três vezes. É ela, a amiga mais próxima que tive nos últimos meses. Tudo acabou no dia em que matei uma pessoa. A porta continua a bater. Agora apenas uma vez. Mando entrar. Ela sempre foi educada, por vezes incompreendida. Vem de repente, mas nunca sem aviso, por mais breve que o seja, é certo que ele existe.
-Estava a ver que nunca mais chegavas - disse-lhe, encarando-a e com um toque de resignação espelhado na minha cara.
-Tudo a seu tempo - respondeu - venho exactamente na hora necessária, agora temos de ir, senão atrasamo-nos.
Atrasar-se para o quê, pensei - ela nunca se atrasa para nada. Quem dera a muitos que o fizesse, a outros chega demasiado cedo e a uns demasiado tarde. Uma vez perguntei-lhe por que motivo tal acontecia. A resposta foi vaga e pouco satisfatória:
-Todos, de uma maneira ou doutra, trabalhamos para o mesmo fim, eu, por exemplo, trabalho para um fim muito específico, diria até que sem mim, toda a vida era impossível - aqui exclamou - eu, que sou o contrário da vida, contribuo para que a vossa seja vivida da melhor maneira possível.
Foi uma das muitas conversas que tive com a Morte.
A Morte está ao meu lado
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