Até os 65 anos, o juiz passa a vida dirigindo audiências e prola-tando sentenças, com a cabeça cheia de doutrina civil e brocardos ro-manos, afogado em um oceano de papel impresso materializado em pilhas de processos. Vai a um congresso em Lima, capital do Peru, onde conhece uma garota japonesa de 19 anos que está ali estudando espa-nhol, por quem se apaixona e com quem vive os melhores dias de sua vida. De volta ao Brasil e com a garota retornando ao Japão, estabelece o magistrado uma intensa correspondência, em que as mensagens ele-trônicas enviadas ao Oriente ocupam agora o primeiro plano das ativi-dades do juiz, com efeitos literários impressionantes, enquanto se suce-dem as imaginárias, oníricas e envolventes aparições da ninfa asiática no dia-a-dia do brasileiro apaixonado. Essa dinâmica demonstra nas páginas do belo romance que são ilimitados os poderes ficcionais da escritora sergipana e que ela é uma mestra no conduzir o leitor nas trilhas montanhosas da mais consistente literatura. Após esse interlúdio original, insólito e resplandecente, o protagonista leva sua paixão às últimas conseqüências e voa para a cidade onde mora Akiko, a fim de passar a entrada do novo ano e o mês de janeiro com ela. Mas antes de ver sua Paixão o homem é confundido com um homônimo, que é um traficante de drogas procurado pela polícia, sendo preso em seu lugar. A partir de então o romance progride em um clima de angústia e dramati-cidade, sugerindo ao leitor que o prodigioso idílio da primeira parte é seguido agora de desespero e dor, ou seja, depois de uma vida mecânica e sem sentido, o protagonista afinal desperta para o sentido da existên-cia, que está em Akiko. Mesmo assim acaba em um labirinto que não tem saída, como se a brilhante novela de Gizelda Morais estivesse per-meada de uma pátina camusseana que anuncia a ilusão da absolvição e o peso inevitável da condenação.
Absolvo e Condeno
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