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    Amados Gatos

    Por JOSÉ JORGE LETRIA
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    Citações de Amados Gatos

    O GATO DE VLADIMIR ILITCH         O homem baixo e calvo, de pêra arruivada e olhos de mongol, afagava demoradamente o seu gato de pêlo amarelo enquanto os comissários do Povo lhe davam conta do avanço do processo de colectivização e da persistente resistência dos kulaks em províncias distantes de Moscovo. Ele permanecia em silêncio, acariciando demoradamente o gato com uma serenidade quase oriental. Por vezes, o intenso ronronar do felino sobrepunha-se à monocórdica voz dos comissários, que se esmeravam nos relatos para poderem ficar nas boas graças do líder.     No rosto do homem havia marcas de um cansaço profundo. Tinha dificuldade em mexer um braço e as palavras eram por vezes pronunciadas com pouca clareza. Estava doente e triste, já pouco lhe restando da energia febril dos tempos da tomada do poder.     — Agora tens que fazer uma pausa para tomares o chá e os medicamentos. Lembra-te dos avisos do médico — disse, com firmeza, Krupskaya, a mulher do líder, colocando sobre a mesa repleta de papéis o samovar e vários frascos de remédios.     Ele limitou-se a acenar com a cabeça em sinal de assentimento. Os comissários que continuassem a falar, que ele, na altura própria, tomaria os comprimidos e os xaropes que tanto detestava. Era esse o seu papel naquele teatro de conflitos e perpétuas suspeições.     Indiferente a tudo e a todos, mas principalmente ao peso quase litúrgico do ritual, o gato continuava a ronronar, demonstrando que a política não tinha para ele o menor interesse. Conhecia dos homens o suficiente para não gostar dela.     De súbito, sem que nada o deixasse prever, o gato assanhou-se, arqueou o dorso, baixou as orelhas e ficou com os olhos injectados de sanguínea fúria. O que teria provocado num bicho manso e preguiçoso tão inusitada e violenta reacção? Talvez ela se tenha ficado a dever às palavras de um comissário do Povo quando disse:     — Tudo isto se deve à sábia actuação do nosso querido camarada Estaline

    Os gatos entraram e saíram do poema, gentis e soberanos como os de Baudelaire e de Mallarmé, altivos e elegantes como os de Rilke ou de Paul Klee, e disseram em uníssono, como se proferissem uma oração felina, daquelas que o tempo não sabe nem quer sujeitar à sua implacável erosão:     — Estamos contigo, Eugénio de Andrade, porque os gatos nunca esquecem quem, cantando, os celebra e eterniza.     Ouvindo isto, o poeta sentiu que se apaziguava o sofrimento físico e fechou os olhos para dormir, enquanto dois gatos, de Veneza, do Egipto e do mundo, velavam à sua cabeceira, oficiantes do ritual que faz do verso o espaço sagrado em que o mistério da poesia eternamente se cumpre.

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