Brasil, Um Retrato
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A obra de Raymundo Faoro é algo como um manifesto profundo e requintado. Nada tem de panfleto popular. É a mensagem de jovem grande pensador à gente culta de seu tempo. Noviço, quer-se apresentar como quem se importa com as ideias e explicações consistentes, apesar de inovadoras. Faoro é um não acadêmico formal. É alguém vindo do Rio Grande do Sul, de origem imigrante imediata. Alguém que contraria o que tinham escrito até então e parecia assentado. O texto é como grande epopeia sem heróis. Nele, o povo é o protagonista ainda a ser, que não se sabe como tal.
Hoje, Faoro, após a Constituição de 1988 e o manejo dessa pelos “donos do poder”, continua incrivelmente atual.
No Brasil, a educação de qualidade e transformadora, além de não ser assunto de interesse dos governantes, não é da compreensão popular.
Quatro temas relevantes estão separados do corpo do ensaio: A estrutura e os processos das associações de conquista (século 21), Esboço sobre a evolução das associações de conquista, As Forças Armadas e “Branqueamento” versus “Pardamento”.
O Estado e a coisa pública Para se entender o Estado como sistema é preciso se conhecer o que seja “bem comum” ou “coisa pública”. O bem comum é argumento em favor da utilidade social dos governantes desde os dias remotos, nas sociedades primitivas.
Só dá valor político, social e libertário à educação quem já a tem e na medida em que a tenha mais e melhor. Quem não a tem, os ignorantes médios e plenos em termos de letramento não a valorizam. Para esses é produto ou serviço de consumo, como viajar, comprar um novo celular, adquirir carro zero, comer carne todos os dias. Cabe a todos terem acesso a educação, seja qual for ela, porque é justo. Para essa maioria contundente, a educação de qualidade não é nem imaginada. E não se deseja o que nem se imagina.
É curioso que os eleitores e os elegíveis para as câmaras municipais, no Brasil, até o final do século 17, eram geralmente homens ligados aos senhorios de engenho de açúcar, com domicílio principal fora da precária área urbana. Não eram propriamente burgueses ou residentes no burgo, embora lá tivessem também moradas. Mistura-se o privado rural e o público urbano.