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    Breviário de decomposição

    Por Emil Cioran
    Existem 13 citações disponíveis para Breviário de decomposição

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    Primeira obra escrita em francês pelo filósofo romeno Cioran, o livro defende que toda a ideia nasce neutra: o homem é que trata de inflamá-la. Para Cioran ? considerado pela crítica como um dos grandes prosadores da língua francesa ?, o que é preciso destruir no homem é sua propensão à fé, ao apetite pelo poder e à faculdade monstruosa de ser obcecado por um deus. Apontado como pessimista, um cultor do paradoxo, Cioran desenvolve seu pensamento de forma clara e límpida. Breviário de decomposição, publicado na França em 1949, depois de ter sido reescrito por quatro vezes, recebeu, em 1951, o Prêmio Rivarol.
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    Citações de Breviário de decomposição

    De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida.

    Cada um de nós nasceu com uma dose de pureza, predestinada a ser corrompida pelo comércio com os homens, por esse pecado contra a solidão.

    Só escapam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque – verdadeiros benfeitores da humanidade – destroem os preconceitos e analisam o delírio.

    Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.

    Equivocar-se, viver e morrer enganados, isto é o que fazem os homens.

    Nascidos em uma prisão, com fardos sobre nossos ombros e nossos pensamentos, não poderíamos alcançar o termo de um só dia se a possibilidade de acabar não nos incitasse a recomeçar o dia seguinte… Os grilhões e o ar irrespirável deste mundo roubam-nos tudo, salvo a liberdade de matar-nos; e esta liberdade nos insufla uma força e um orgulho tais que triunfam sobre os pesos que nos esmagam. Poder dispor absolutamente de si mesmo e recusar-se: existe dom mais misterioso? A consolação pelo suicídio possível amplia infinitamente esta morada onde sufocamos. A ideia de nos destruir, a multiplicidade de meios para consegui-lo, sua facilidade e proximidade nos alegram e nos assustam; pois não há nada mais simples e mais terrível do que o ato pelo qual decidimos irrevogavelmente sobre nós mesmos. Em um só instante, suprimimos todos os instantes; nem o próprio Deus saberia fazer igual. Mas, demônios fanfarrões, adiamos nosso fim: como renunciaríamos ao desdobramento de nossa liberdade, ao jogo de nossa soberba?…

    O ponto crítico da vitalidade não é a doença – que é luta –, mas esse horror impreciso que repudia todas as coisas e rouba dos desejos a força de procriar novos erros. Os sentidos perdem sua seiva, as veias secam e os órgãos só percebem o intervalo que os separa de suas próprias funções. Tudo se torna insípido: alimentos e sonhos. Não há mais aroma na matéria nem enigma nos pensamentos; gastronomia e metafísica tornam-se igualmente vítimas de nossa inapetência. Permanecemos durante horas esperando outras horas, esperando instantes que não fugissem mais do tempo, instantes fiéis que nos reinstalassem na mediocridade da saúde… e no esquecimento de seus perigos.

    Se se pusesse em um prato da balança o mal que os “puros” espalharam sobre o mundo e no outro o mal proveniente dos homens sem princípios e sem escrúpulos, é o primeiro prato que inclinaria a balança. No espírito que a propõe, toda fórmula de salvação erige uma guilhotina… Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade do que os flagelos causados pelas épocas ardentes; a lama é mais agradável que o sangue; há mais suavidade no vício que na virtude, mais humanidade na depravação que no rigorismo. O homem que reina e não crê em nada, eis o modelo de um paraíso da decadência, de uma soberana solução da história. Os oportunistas salvaram os povos; os heróis os arruinaram. Devemos sentir-nos contemporâneos, não da Revolução e de Bonaparte, mas de Fouché e de Talleyrand: faltou à versatilidade destes apenas um suplemento de tristeza para que nos sugerissem com seus atos uma Arte de viver.

    A aventura humana terá certamente um fim, que pode-se conceber sem ser contemporâneo dele. Quando se consumou em si mesmo o divórcio com a história, é inteiramente supérfluo assistir a seu encerramento. Só é preciso olhar o homem cara a cara para afastar-se dela e não sentir mais saudades de seus embustes. Milhares de anos de sofrimentos, que teriam enternecido as pedras, só fizeram insensibilizar este efêmero de aço, exemplo monstruoso de evanescência e de endurecimento, agitado por uma loucura insípida, por uma vontade de existir ao mesmo tempo inapreensível e impudica. Quando se percebe que nenhum motivo humano é compatível com o infinito e que nenhum gesto vale a pena ser esboçado, o coração, com suas batidas, já não pode ocultar sua vacuidade. Os homens se confundem em uma sorte uniforme e vã como acontece, para um olhar indiferente, com os astros ou as cruzes de um cemitério militar. De todos os fins propostos à existência, qual, submetido à análise, escapa à comédia ou ao necrotério? Qual não nos revela fúteis ou sinistros? Há algum sortilégio que possa nos enganar ainda?

    Há mil remédios para a miséria, mas nenhum para a pobreza. Como socorrer os que insistem em não morrer de fome? Nem Deus poderia corrigir sua sorte. Entre os favorecidos da fortuna e os esfarrapados, circulam esses esfomeados honoráveis, explorados pelo fausto e pelos andrajos, saqueados por aqueles que, tendo horror ao trabalho, instalam-se, segundo sua sorte ou vocação, no salão ou na rua. E assim avança a humanidade: com alguns ricos, com alguns mendigos – e com todos os seus pobres…

    Quando não se pode livrar-se de si mesmo, deleita-se devorando-se. Em vão se chamaria o Senhor das Sombras, o distribuidor de uma maldição precisa: se está doente sem doença e se é réprobo sem vícios. A melancolia é o estado sonhado do egoísmo: nenhum objeto fora de si mesmo, nenhum motivo mais de ódio ou de amor, a não ser essa mesma queda em um lodo lânguido, essa mesma agitação de condenado sem inferno, essas mesmas reiterações de um ardor de perecer… Enquanto que a tristeza contenta-se com uma moldura de fortuna, a melancolia necessita de uma orgia de espaço, de uma paisagem infinita para nela espalhar sua graça desagradável e vaporosa, seu mal sem contornos, que, por medo de curar-se, teme um limite à sua dissolução e às suas ondulações. Floresce – a flor mais estranha do amor-próprio – entre os venenos dos quais extrai sua seiva e o vigor de todos os seus desfalecimentos. Nutrindo-se do que a corrompe, esconde, sob seu nome melodioso, o Orgulho da Derrota e a Compaixão de si mesmo…

    GÊNESE DA TRISTEZA Não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: nossos fracassos provêm de nossa incapacidade para conceber o Paraíso e aspirar a ele, como nossos mal-estares da fragilidade de nossas relações com o absoluto. “Sou um animal religioso incompleto, padeço duplamente de todos os males” – adágio da Queda, que o homem se repete para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre à moral, decide seguir, expondo-se ao ridículo, seu conselho edificante. “Resolve-te a não estar mais triste”, lhe responde esta. E ele se esforça por entrar no universo do Bem e da Esperança… Mas seus esforços são ineficazes e antinaturais: a tristeza remonta à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original…

    SOBRE CERTAS SOLIDÕES Há corações que Deus não poderia contemplar sem perder sua inocência. A tristeza começou aquém da criação: se o Criador houvesse penetrado antes no mundo, teria comprometido seu equilíbrio. Quem crê que ainda pode morrer não conheceu certas solidões, nem o inevitável da imortalidade percebida em certas angústias… A sorte dos modernos é haver localizado o inferno em nós: se tivéssemos conservado sua figura antiga, o medo, sustentado por dois mil anos de ameaças, nos teria petrificado. Não há pavores que não estejam transpostos para o subjetivo: a psicologia é nossa salvação, nosso subterfúgio. Antigamente, pensou-se que este mundo havia surgido de um bocejo do diabo; hoje, só é erro dos sentidos, preconceito do espírito, vício do sentimento. Sabemos a que nos ater ante a visão do Juízo Final de Santa Hildegarda ou ante a do inferno de Santa Teresa: o sublime – seja o do horror ou o da elevação – está classificado em qualquer tratado de doenças mentais. E embora nossos males nos sejam conhecidos, nem por isso estamos livres de visões, mas já não cremos nelas. Versados na química dos mistérios, explicamos tudo, até nossas lágrimas. Algo permanece, porém, inexplicável: se a alma é tão pouca coisa, de onde vem nosso sentimento da solidão? Que espaço ocupa? E como substitui, subitamente, a imensa realidade desvanecida?

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