Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global
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Nós, a “maioria democrática”, nos consolamos com o fato de que todas essas violações dos direitos humanos são dirigidas a “eles”, não a “nós” – a tipos diferentes de seres humanos (“Cá entre nós, será que são mesmo humanos?”) –, de que esses ultrajes não nos afetam, nós, as pessoas decentes.
Tenho certeza, contudo, de que a mistura explosiva de crescente desigualdade social e volume cada vez maior de sofrimento humano relegado à condição de “colateralidade” (marginalidade, exterioridade, “removibilidade”, de não ser uma parte legítima da agenda política) tem todos os sinais para se tornar, potencialmente, o mais desastroso dos problemas que a humanidade será forçada a confrontar, administrar e resolver no século atual.
Uma das chagas mais evidentes dos regimes democráticos é a contradição entre a universalidade formal dos direitos democráticos (garantidos de modo igual a todos os cidadãos) e a capacidade nem tão universal de seus portadores de exercer de fato esses direitos;
As baixas são “colaterais” quando rejeitadas como não importantes o suficiente para justificar os custos de sua prevenção, ou simplesmente “inesperadas”, porque os planejadores não as consideraram dignas de serem incluídas entre os objetos das ações de reconhecimento preparatório.
Pensar em termos de danos colaterais é presumir tacitamente uma desigualdade de direitos e oportunidades preexistente, ao mesmo tempo que se aceita a priori a distribuição desigual dos custos da ação empreendida (ou, nesse sentido, de se desistir dela).
Como assinalou Jacques Attali em La voie humaine,6 metade do comércio mundial e mais de metade do investimento global beneficiam apenas 22 países, que abrigam 14% da população mundial, enquanto os 49 países mais pobres, habitados por 11% da população mundial, recebem entre si apenas 0,5% do produto global – quase o mesmo que a soma dos rendimentos dos três homens mais ricos da Terra. Algo em torno de 90% da riqueza total do planeta permanece nas mãos de apenas 1% de seus habitantes.