Quando me convidaram para escrever sobre Duas bocas: histórias de comida e sexo disseram: “é um romance erótico assinado pela autora com um pseudônimo — Fugu.”Minha primeira reação foi perguntar: “Quem é a autora? Acho importante saber para escrever o texto.”Em seguida, antes de aceitar ou rejeitar o convite, pedi para ler o livro.Recebi o livro e, durante a madrugada, devorei prazerosamente cada capítulo, cada receita afrodisíaca, cada cena de amor e de sexo.Só precisei das primeiras linhas para dar minha resposta.Aceitei escrever o texto.E não quis mais saber quem é a autora.Não precisei saber seu nome, sua idade, sua profissão, se escreveu outros livros.O delicioso texto foi tudo do que precisei para saborear Duas bocas.Agora, só me interessa saber que Fugu é o nome de um peixe, uma iguaria rara no Japão, “possuidor de um veneno letal”. Lá, os cozinheiros mais experientes não tiram o veneno do peixe, deixam “um tiquinho, na medida certa para inebriar sem matar”.Ela chama o amante de Fugu. Ele também a chama de Fugu. Os dois, prestes a completar cinquenta anos, famintos um pelo outro, tornaram-se “cozinheiro e comensal, sacerdote e oferenda, veneno e remédio”.O livro é servido em finas e delicadas fatias, regadas por um molho picante e irresistível.Duas bocas é sobre a boca que come, beija, chupa, fala, deseja; a boca faminta de comida, prazer, tesão, gozo, paixão e amor.“Nenhum presente é mais precioso do que uma ilusão”, escreve Fugu. “Para que cresça na boca e na memória, precisa ser leve, areada, com lacunas a serem preenchidas pela fantasia.”O livro é leve, areado, com lacunas a serem preenchidas pela fantasia.É para deixar com água na boca, nas “duas bocas”.Mirian Goldenberg
Duas bocas: Histórias de comida e sexo
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