Flor de Eco
Flor de Eco é um livro magmático. Contos de uma autoria fascinante, um estilo próprio. O mesmo estilo que fez de JH Henriques um dos escritores mais promissores do Brasil nos dias atuais. Fragmento de um dos contos: Libertino estava sentado num cocho - um meio cocho – carcomido de velha-velhura. Estava uma hora fresca da manhã, quando ainda soía cantar o gaturamo para risco de orvalho escutar. As ramas do capim meloso cheias das gotas. Meu cão adiantou-se duas polegadas de rumo, foi adiante de meus passos. Cheirou-lhe a mão. Libertino era mulato escuro, tinha cabelos brancos e um arremedo de bigode sobre a boca murcha. Tinha lá o seu jeitão de michila em sombra de mato fresco. Com poucos dentes, quase sem eles, o homem roía uns gomos de cana da qualidade argentina. Chupava aquilo que podia. Escorriam-lhe pelo queixo alguns sumos que escapavam entre língua e lábio. Fiapos de bagaço deslizavam abaixo. Junto de um formigueiro grande crescera um pé de pita. Nele um canário-da-terra abria a goela, o seu concerto matinado. Saudei a Libertino como se saúda no momento de orvalho decantar. Meu cão abanava a cauda, quequequé. Olhava dentro de olhos de conhecê-lo, ao homem Libertino. Como é dos cães dessa raça perdigueira fazerem. Eles têm a mania de olhar dentro dos olhos das criaturas.
Depois, sentei-me no cocho ao seu lado enquanto o cão estirava-se numa lingüeta mais regalada de sol. A barriga do animal, úmido-larga, o sereno-orvalho. Quando o serenorvalho molha um pelo, tem o tom breve da manhã reversa em vidros, encrespa-se todo com o doce flautim do gaturamo e com o repique repetido da codorna. Pela minha banda, com o ouvido mais espichado para o resto das coisas, eu esperava que a perdiz piasse, embora e muito nem fosse o tempo certo dos primeiros pios. Setembro ficava ainda longe daqueles maios de agora. As perdizes iam demorar mais de meio ano para começar o pio, se não tanto assim, pelo menos em torno disso. Elas são eximias entendedoras de primavera.
O cão fechou os olhos devido à luminosidade. Depôs a cabeça malhada sobre as patas e espirrou. Tudo sofria de um pedaço de silêncio muito oportuno. Tudo estava quieto. Somente o canário cristalizava o amanhecido. Pequenos ventos vindos das serras davam na espigada forma da piteira. Libertino, dentro do oco de seu silêncio, olhou a distância dos mundos atrás dos mundos. A serra do Rio Preto atravessava uma divisa azul dentro das linhas do horizonte. O desenho imitava as nuvens e se com fundia com elas na hora de se caçar forma para o que é céu e o que é terra. Ficava tudo muito azulego. Havia uma delicadeza de sumo nas vantagens do tempo subir a banda lisa da serra, acolá. A Serra do Rio Preto.
O que antes era a casa de Libertino, agora se resumia a uma tapera velha. Pois que tinha a sua saleta, quarto e cozinha. Tinha mais as áreas lá no terreiro da cozinha, o espaço limpo para se estender roupa, livre das beldroegas, um forno de barro e adobe, pronto para a fazeção de quitandas. Tinha o oco do lugar da tacha de fazer doce e sabão. A cisterna sempre replena de boa água. No se rever, a triste figura, a parte do quarto que era, no antanho de outros passados, havia ruído. Ficaram eretas as vigas de aroeira – que é dita uma coisa eterna – e restos de tijolo. Nos restolhos, lugar preferente de calango passear a desova e cobra coral anelar o ninho, viam-se os monturos sem nexo. A moradia dos bichos que gostam, entes vivos, da taipa quente. Para esses bichos, o substrato ideal para uma vida morna e sonolenta reide mesmo nesses pontos já assentados com massa de proteção.
Flor de Eco é um livro magmático. Contos de uma autoria fascinante, um estilo próprio. O mesmo estilo que fez de JH Henriques um dos escritores mais promissores do Brasil nos dias atuais. Fragmento de um dos contos: Libertino estava sentado num cocho - um meio cocho – carcomido de velha-velhura. Estava uma hora fresca da manhã, quando ainda soía cantar o gaturamo para risco de orvalho escutar. As ramas do capim meloso cheias das gotas. Meu cão adiantou-se duas polegadas de rumo, foi adiante de meus passos. Cheirou-lhe a mão. Libertino era mulato escuro, tinha cabelos brancos e um arremedo de bigode sobre a boca murcha. Tinha lá o seu jeitão de michila em sombra de mato fresco. Com poucos dentes, quase sem eles, o homem roía uns gomos de cana da qualidade argentina. Chupava aquilo que podia. Escorriam-lhe pelo queixo alguns sumos que escapavam entre língua e lábio. Fiapos de bagaço deslizavam abaixo. Junto de um formigueiro grande crescera um pé de pita. Nele um canário-da-terra abria a goela, o seu concerto matinado. Saudei a Libertino como se saúda no momento de orvalho decantar. Meu cão abanava a cauda, quequequé. Olhava dentro de olhos de conhecê-lo, ao homem Libertino. Como é dos cães dessa raça perdigueira fazerem. Eles têm a mania de olhar dentro dos olhos das criaturas.
Depois, sentei-me no cocho ao seu lado enquanto o cão estirava-se numa lingüeta mais regalada de sol. A barriga do animal, úmido-larga, o sereno-orvalho. Quando o serenorvalho molha um pelo, tem o tom breve da manhã reversa em vidros, encrespa-se todo com o doce flautim do gaturamo e com o repique repetido da codorna. Pela minha banda, com o ouvido mais espichado para o resto das coisas, eu esperava que a perdiz piasse, embora e muito nem fosse o tempo certo dos primeiros pios. Setembro ficava ainda longe daqueles maios de agora. As perdizes iam demorar mais de meio ano para começar o pio, se não tanto assim, pelo menos em torno disso. Elas são eximias entendedoras de primavera.
O cão fechou os olhos devido à luminosidade. Depôs a cabeça malhada sobre as patas e espirrou. Tudo sofria de um pedaço de silêncio muito oportuno. Tudo estava quieto. Somente o canário cristalizava o amanhecido. Pequenos ventos vindos das serras davam na espigada forma da piteira. Libertino, dentro do oco de seu silêncio, olhou a distância dos mundos atrás dos mundos. A serra do Rio Preto atravessava uma divisa azul dentro das linhas do horizonte. O desenho imitava as nuvens e se com fundia com elas na hora de se caçar forma para o que é céu e o que é terra. Ficava tudo muito azulego. Havia uma delicadeza de sumo nas vantagens do tempo subir a banda lisa da serra, acolá. A Serra do Rio Preto.
O que antes era a casa de Libertino, agora se resumia a uma tapera velha. Pois que tinha a sua saleta, quarto e cozinha. Tinha mais as áreas lá no terreiro da cozinha, o espaço limpo para se estender roupa, livre das beldroegas, um forno de barro e adobe, pronto para a fazeção de quitandas. Tinha o oco do lugar da tacha de fazer doce e sabão. A cisterna sempre replena de boa água. No se rever, a triste figura, a parte do quarto que era, no antanho de outros passados, havia ruído. Ficaram eretas as vigas de aroeira – que é dita uma coisa eterna – e restos de tijolo. Nos restolhos, lugar preferente de calango passear a desova e cobra coral anelar o ninho, viam-se os monturos sem nexo. A moradia dos bichos que gostam, entes vivos, da taipa quente. Para esses bichos, o substrato ideal para uma vida morna e sonolenta reide mesmo nesses pontos já assentados com massa de proteção.