"A obra de João de Leri foi publicada em 1578, sendo por isso escrita em francês do antigo estilo; daí vem, que está em linguagem antiquada, cheia de termos obsoletos, de transposições repetidas, e períodos longos. A leitura pois da obra exige frequentemente o uso, dos dicionários antigos para os termos desusados, e é penosa por necessitar o leitor de constante compreender o sentido d?esses períodos continuados hipérbatos. Esta obra é um dos primeiros monumentos gráficos da nossa historia primitiva, e convém encorporá-a ao, nosso pecúlio histórico d?esses tempos do primeiro descobrimento da nossa terra, e essa encorporação convém fazer na língua nacional. Por isso pareceu-me, que faria serviço aproveitável, traduzindo em linguagem vernácula a Históriade uma viagem feita á terra do Brasil por João de Leri. Alem dos termos obsoletos e das transposições, o estilo irregular do autor dificulta a inteligência do texto, e exige acurada atenção e a repetição da leitura para combinar os períodos e perceber o sentido das orações. Quem duvidar do que dizemos procure o original francês , e leia; e estou certo, que terá repetidamente de parar na leitura para refletir, organizar a locução e compreender o sentido d?essa frazeologia antiquada e d?esse estilo incorreto e cheio de continuadas transposições, que pertubam a clareza do pensamento, e interrompem a proposição principal com incidentes e circunstancias numerosas, cuja multiplicidade escurece e baralha as ideias, que se vão deduzindo no discurso. A tradução facilita ao leitor nacional a leitura, e ficarei satisfeito do enfadonho trabalho, a que me dei, se com efeito assim suceder. Procurei seguir o texto com escrúpulo, e ser exato na interpretação do pensamento do autor. Si alguém de futuro quiser confrontar a tradução e o original, corrigirá qualquer desvio, que eu tenha porventura cometido, fazendo serviço ás terras pátrias. Darei também a tradução das obras de Hans Staden, Andre Tevet, e Alvaro Nunes Cabeça de Vaca como documentos primitivos da nossa história. Varias cronicas temos dos primeiros visitantes da nossa terra escritas em língua estranha, e parece-me, que util seria passá-as todas para a linguagem pátria. Já o nosso prestimoso consocio doator Cezar Augusto Marques tradusiu e publicou os trabalhos de Claudio de Abeville e Ivo d?Ivreuadres franceses, que vieram ao Maranhão nos primeiros tempos de seu descobrimento, e bom seria, que outros imitassem tão louvável empenho. O primeiro escreveu a história da missão dos padres capuxinhos na ilha do Maranhão; o segundo publicou a Viagem ao norte do Brasil. O doutor José Igino Duarte Pereira, nosso ilustrado consocio, tem feito bom serviço ao estudo da historia pátria, traduzindo vários documentos relativos ao tempo do domínio holandês em Pernambuco, e fazemos votos para que ele prosiga em tão meritória empresa. Os escritores primitivos tem maior graça e nos dão melhor idéa das cousas, que viram e descreveram, do que os subsequentes expositores, que já escreveram extratando das obras originais. Falta sensível é ainda não termos no idioma nacional obras como a de Gaspar Barleo sobre o governo do Conde de Nassau em Pernambuco (Res Brasiliae imperante Comite Joanne Mauritio) e outras de incontrastável merecimento e valor para o conhecimento da historia da nossa pátria. Rio 5 de Agosto de 1887. T. Alencar Araripe."
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Citações de Historia de uma Viagem Feita á Terra do Brazil
tendes páo na vossa terra? E respondi, que tinhamos, e em grande quantidade, mas não da qualidade dos seos, nem tinhamos páo-brazil, que nós não queimavamos, como ele supunhantes; o queriamos para fazer tinta, e empregar como eles faziam, uzando d’ela para tingir os seos cordões de algodão, plumas e outras couzas.
Os nossos Tupinambás ficam pasmos de vêr os Francezes e, outros estrangeiros ter o trabalho de ir buscar o seo arabutan, isto é, páo-brazil. Uma vez um velho fez-me esta pergunta: – O que quer dizer virdes vos outros, Mairs e Peros, isto é, Francezes e Portuguezes, de tam longe buscar lenha para vos aquecer? Não
passam os mares para ir buscar páo-brazil afim de enriquecer-se; e por mais obtuza que seja, atribuindo maior importancia á natureza e á fertilidade da; terra do que nós damos ao poder e providencia de Deos, insurge-se contra esses rapinadores denominados cristãos, de que a terra cá pela Europa está tam repleta, quanto vazia está lá na região dos selvicolas.