Histórias de canções: Chico Buarque
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“Então tá. Fica assim: ‘Vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco’”.
Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas. Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor.
Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
Ao inseri-la no seu próprio disco, Chico fez, no texto da contracapa, um comentário machista, do qual se envergonharia anos depois: “Insisti ainda em colocar no disco o ‘Com açúcar, com afeto’, que eu não poderia cantar por motivos óbvios”. Pode parecer estranho, mas em 1966 era inconcebível um homem, mesmo sendo Chico Buarque, interpretar uma mulher.
Numa noite de boemia, o pintor Di Cavalcanti prometeu a Chico um quadro seu.
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu Em paz Chico recebeu a música de Vinicius na Argentina, onde o compadre fazia um show com Toquinho. Voltou com a fita para o Brasil e, tempos depois, remetia a letra pelo correio. Vinicius respondeu propondo algumas alterações, inclusive no título, que a seu ver deveria ser “Valsa hippie”: Mar del Plata, 24-1-71 Chiquérrimo: Dei uma apertada linda na sua letra, depois que v. partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três ideias que tive […] Mas como v. me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se v. concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor estas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? Valsa hippie Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar E não falou mal da poesia como era mania sua de falar E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto, disse: Vamos
Numa sexta-feira 13 de dezembro, usando como pretexto o fato de a Câmara haver negado o pedido para abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves por suposta agressão às Forças Armadas, o governo baixa o Ato Institucional nº 5. São suspensas todas as garantias individuais. O Congresso é fechado. Centenas de pessoas são presas – entre elas, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Estabelece-se formalmente a censura à imprensa. O país mergulhava no mais sombrio período de sua história: os anos de chumbo.
Pois é (1968) Tom Jobim-Chico Buarque Pois é Fica o dito e o redito por não dito E é difícil dizer que foi bonito É inútil cantar o que perdi Taí Nosso mais-que-perfeito está desfeito E o que me parecia tão direito Caiu desse jeito sem perdão Então Disfarçar minha dor eu não consigo Dizer: somos sempre bons amigos É muita mentira para mim Enfim Hoje na solidão ainda custo A entender como o amor foi tão injusto Pra quem só lhe foi dedicação Pois é, e então…
“Sabe, no fundo eu sou um sentimental Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo … (além da sífilis, é claro)[6] Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”
a palavra “chão” correspondia à nota mais grave e “céu” à mais aguda.
Olha Será que é uma estrela Será que é mentira Será que é comédia Será que é divina A vida da atriz
Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.
nunca vou chamar Fernando Henrique de meu bem”.
Pois se beija, se maltrata Se come e se mata Se arremata, se acata e se trata A dor Na orgia Da luz do dia