Existe preconceito racial contra os negros no Brasil? Em Casa grande e senzala, obra-prima lançada em 1933, Gilberto Freyre sugeriu que o Brasil era um caso especialíssimo de democracia racial em que negros e brancos conviveriam em perfeita harmonia. Nos Estados Unidos, Billie Holiday gravaria, em 1939, a canção Strange Fruit. A letra da música denunciava o linchamento e enforcamento de negros em Estados sulistas: “Árvores do sul produzem uma fruta estranha. Sangue nas folhas e sangue nas raízes. Corpos negros balançando na brisa do sul. Fruta estranha pendurada nos álamos”. Freyre deve ter comparado a realidade brasileira com aquela que existia nos Estados Unidos para elaborar a tese da democracia racial.
Alguns sociólogos contestaram a tese apresentada em Casa grande e senzala. Como falar em democracia racial num país com uma desigualdade racial tão escancarada? A convivência racial pacífica mascararia, na verdade, a discriminação praticada contra os negros em todos os setores da vida social.
Vejamos alguns fatos. Os negros correspondem a apenas 2% do contingente de universitários, apesar de representarem 45% dos brasileiros. Estudos do IPEA, Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas, revelaram que um homem branco brasileiro, em média, recebia R$ 934,00; uma mulher branca, R$ 633,30; um homem negro, R$ 458,90; e uma mulher negra, apenas R$ 325,40. Wilson H. Silva assinalou que os negros constituem a enorme maioria dos desempregados, dos analfabetos, dos que não têm teto ou terra. Constituem a maioria daqueles que morrem nas portas dos hospitais públicos ou nas sarjetas das grandes cidades e daqueles que são vitimados por bárbaras chacinas policiais.
Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo, indicou que a cor é um fator determinante na distribuição de justiça entre cidadãos brasileiros. Os réus negros são mais perseguidos pela vigilância policial. Existe uma maior proporção de réus brancos respondendo a processos em liberdade: 27%, contra 15,5% de réus negros. (Adorno, 1996). Um relatório do PNUD mostrou que, no Estado do Rio de Janeiro, a polícia mata muito mais gente da raça negra do que branca.
Neste livro tentaremos sugerir algumas explicações para a questão racial no Brasil. Não existiria certa verdade na tese da democracia racial? As relações raciais existentes no Brasil são muito diferentes daquelas que existiam na África do Sul. A discriminação ocorre porque existem mais negros pobres ou ela ocorreria simplesmente em razão da cor da pele? A desigualdade entre negros e brancos seria uma herança do período da escravidão? Se os negros tivessem vindo ao Brasil na condição de imigrantes, e não como escravos, a situação deles hoje não seria bem diferente?
A escravidão e a miscigenação de raças ocorrida durante a colonização de exploração, a não segregação social de negros como ocorreu em outros países, além da segmentação étnica que se verificou nas colônias de imigrantes nas regiões Sudeste e Sul — estas serão consideradas as bases históricas que constituíram a especificidade do preconceito racial no Brasil.
Miscigenação, democracia racial e preconceito contra os negros no Brasil
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