O rei de amarelo
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Era a busca do efeito estético sem qualquer tipo de amarra moral, do prazer sem consequência, do excesso sem responsabilidade.
As leis que proibiam o suicídio e puniam qualquer tentativa de autodestruição foram abolidas. O governo achou apropriado reconhecer o direito do homem de acabar com uma existência que pode ser insuportável devido ao sofrimento físico ou desespero mental. Acreditamos que a comunidade será beneficiada pela remoção dessas pessoas de seu convívio.
Na última década do século XIX, o amarelo, cor dos trajes do Rei que dá título a esta coletânea, era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura
— As leis que proibiam o suicídio e puniam qualquer tentativa de autodestruição foram abolidas. O governo achou apropriado reconhecer o direito do homem de acabar com uma existência que pode ser insuportável devido ao sofrimento físico ou desespero mental. Acreditamos que a comunidade será beneficiada pela remoção dessas pessoas de seu convívio. Desde a aprovação desta lei, o número de suicídios nos Estados Unidos não aumentou. Agora que o governo resolveu criar Câmaras Letais em todas as cidades, das maiores aos menores vilarejos do país, resta ver se esse tipo de criatura humana, de cujas fileiras desalentadas diariamente surgem vítimas da autodestruição, aceitará o alívio que elas fornecerão.8 Ele fez uma pausa e se virou para a Câmara Letal branca. O silêncio na rua era absoluto. — Lá, uma morte indolor aguarda a pessoa que não suporta mais seus pesares nesta vida. Se a morte é tão bem-vinda, venham buscá-la aqui.
“Ne raillons pas les fous; leur folie dure plus longtemps que la nôtre… Voila toute la différence.”
Trecho do romance satírico “Gargântua e Pantagruel”, de François Rabelais (1494-1553). Mas acredito que eu Tenha descido até o abismo Tenebroso no qual dizia Heráclito que a verdade era oculta.
zombemos dos loucos; sua insanidade dura mais tempo que a nossa… Eis aí toda a diferença.”
“Não zombemos dos loucos; sua insanidade dura mais tempo que a nossa… Eis aí toda a diferença.”
O mar quebra pela orla, vago, Os sóis gêmeos afundam sob o lago, As sombras se alongam Em Carcosa1 . Estranha é a noite em que estrelas negras sobem, E estranhas luas o céu percorrem Mas ainda mais estranha é a Perdida Carcosa . Que morra inaudita, Onde o manto em retalhos do Rei se agita; A canção que entoarão às Híades2 na Obscura Carcosa . Canção de minh’alma, minha voz é finada; Morra sem ser entoada, como lágrima jamais derramada Seca e morta na Perdida Carcosa.
A máscara do autoengano não era mais uma máscara: fazia parte de mim. A noite a retirava, desnudando a verdade sufocada por baixo. Mas sob ela, havia apenas eu mesmo para ver, e, quando o dia raiava, a máscara voltava ao lugar por conta própria.
Peço a Deus que amaldiçoe o escritor, pois ele amaldiçoou o mundo com esta bela, estupenda criação, terrível em sua simplicidade, irresistível em sua verdade — palavra que agora estremece diante do Rei de Amarelo. Quando o governo francês confiscou os exemplares traduzidos que tinham acabado de chegar a Paris, Londres, é claro, ficou ansiosa para lê-lo. É bem sabido que o livro se espalhou como uma doença contagiosa, de cidade a cidade, de continente a continente, proibido ali, confiscado acolá, condenado pela imprensa e pelas religiões, censurado até pelos anarquistas literários mais avançados.
Durante minha convalescência, comprei e li pela primeira vez O Rei de Amarelo4. Lembro, depois de terminar o primeiro ato, que me ocorreu que era melhor parar por ali. Arremessei o volume na lareira, mas o livro bateu na grade protetora e caiu aberto no chão, iluminado pelas chamas. Se não tivesse visto de passagem as primeiras linhas do segundo ato, eu nunca teria terminado a leitura, mas, quando me levantei para pegá-lo, meus olhos grudaram na página aberta, e com um grito de horror, ou talvez tenha sido de alegria, tão pungente que o senti em cada nervo, afastei o objeto das brasas e voltei em silêncio e tremendo para meu quarto, onde o li e o reli, e chorei, e ri e estremeci com um terror que às vezes ainda me assola.