Estamos diante de um novo tempo e hábitat do espírito. O lugar deste novo hábitat é o complexo espaço das redes digitais, o ciberespaço; o tempo é o das interconexões globais à velocidade da luz. Trata-se da emergência do ‘nous’ digital.
A civilização planetária está realizando um mergulho total e sem volta neste novo espaço-tempo. Mergulho cujas consequências e efeitos são extraordinários e, muitas vezes, desestabilizadores dos modos de ser, viver e perceber o mundo até então hegemônicos.
Em livro anterior, ‘A República digital’, procurou-se problematizar as relações entre a técnica e o poder, entre o ciberespaço e o exercício do poder, buscando explicitamente visualizar os efeitos políticos e as possibilidades republicanas emergentes dessas relações. No presente livro, que deve ser considerado como uma complementação daquele, os ensaios, cuja maioria já foi publicada, problematizam os efeitos e as mutações emergentes no âmbito da ‘noosfera’, ou seja, da cultura, da comunicação, da ‘paideia’ e mesmo da filosofia, como disciplina própria do ‘nous’.
Os efeitos e as transformações são verdadeiramente espantosos e precisam ser compreendidos em toda sua complexidade e grandeza.
É impossível não perceber as mutações que vão se processando nas subjetividades contemporâneas, nos seus modos de expressão e apropriação discursiva da existência se comparados aos processos de formação, antes hegemonizados pela instituição escolar e pela televisão. É impossível não perceber a distância entre uma filosofia e uma ciência fundadas técnica e epistemologicamente no horizonte do texto escrito impresso diante daquelas do hipertexto digital.
O pensamento até então preso aos limites do papel impresso torna-se impulso eletrônico distribuído e compartilhado globalmente à velocidade da luz. Ao mesmo tempo, os novos perfis subjetivos emergentes são cada vez mais polifônicos e o antes estritamente público transforma-se em ambiente privado e o então mundo privado torna-se também público, transformando as noções de si mesmo, de público e privado herdadas pela psicologia e pelo direito moderno.
A educação virtual, por sua vez, avança para se transformar na forma própria da educação do futuro, na qual todos, de alguma forma, estarão conectados. Tudo é educação, Michel Serres já o percebera bem. Tudo depende dos fatores produtivos e existenciais ligados ao conhecimento, à criatividade e aos processos de formação.
A revolução da comunicação e da cultura digital, entretanto, está longe de ter chegado ao final. Hoje, assiste-se a uma nova convergência midiática envolvendo as redes de computadores, celulares e televisores a qual certamente vai reconfigurar a aventura cultural humana. Essa convergência resultará na intensificação da interconexão global e total. Isso significa que, de um lado, a ‘divisão digital’ que tem marcado a sociedade da informação e, de outro, o monumental efeito de ‘narcose audiovisual’ em massa provocado pela televisão estarão em questão.
Até então o computador tem sido um privilégio dos integrados à sociedade e economia da informação, ao passo que a televisão e o celular tornaram-se rapidamente grandes meios de comunicação de massas, incluindo as marginalizadas. A hibridização destas mídias inevitavelmente tenderá e ajudará a diminuir o atual fosso digital existente.
É esta, a meu ver, a revolução midiática que se começa a viver e que avançará como um furacão nas próximas décadas.
Os textos apresentados têm datas e origens diversas. Percorrem um tempo que vai de 2003 até 2011 e responderam a diferentes desafios teóricos que neste período foram colocados para o autor. Eles são complementares e podem ser lidos separada e independentemente uns dos outros. No conjunto, eles são uma tentativa de compreensão de nossa atualidade psicocultural, mas talvez devessem ser interpretados principalmente como prenúncios e subsídios à leitura do novo furacão digital que se avizinha no horizonte da civilização do século XXI.
Psiquismo digital – sociedade, cultura e subjetividade na era da comunicação digital
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