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    Reprodução

    Por Bernardo Carvalho
    Existem 14 citações disponíveis para Reprodução

    Sobre

    Um homem, referido como ?o estudante de chinês?, se envolve num estranho imbróglio quando se preparava para embarcar para China no mesmo voo de uma de suas antigas professoras desse idioma. Detido por um delegado da Polícia Federal, desanda a desfiar toda uma série de preconceitos tenebrosos - contra negros, árabes, judeus, gays, pobres, gordos -, prejudicando-se ainda mais aos olhos da lei.


    Acontece que esse ?estudante de chinês?, sujeito que chegou a trabalhar no mercado financeiro, é um típico personagem da nossa época: leitor de revistas semanais, comentarista de blogs (onde vitupera em caps lock contra as minorias), com um saber supostamente enciclopédico (graças à Wikipedia) e um ethos reacionário, parece encarnar um tipo anti-intelectual que iria ganhar força graças ao espaço relativamente livre da internet.


    Mas a confusão em que o personagem de Bernardo Carvalho se envolve é apenas a ponta do iceberg: o próprio delegado tem uma estranha história envolvendo paternidade, assim como uma de suas colegas, uma agente infiltrada numa igreja neopentecostal. Sem falar na própria professora de chinês, que está tentando retornar à China para replicar, através da vida de uma menina órfã, a sua própria infância devastada.


    São personagens, vigorosamente construídos pelo autor, às voltas com suas próprias buscas de identidade e procura por um sentido. Enquanto o estudante de chinês embarca numa espécie de delírio, o mundo à sua volta parece igualmente destituído de um sentido maior. Porque cada um tem sua versão da realidade. E é do choque dessas diversas versões que Reprodução ganha força e profundidade, sem abdicar da fluência e do humor corrosivo.


    É deste modo, trazendo à tona uma série de ?reproduções? - do discurso da imprensa aos sites da internet, da reprodução sexual à própria imitação da vida - que este romance poderoso do início ao fim ganha relevância, além de ser leitura imensamente prazerosa e intelectualmente estimulante.

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    Citações de Reprodução

    Você também só reproduz. Sua opinião é decidida pela genética e pelos vírus que te colonizam.

    A língua do futuro vai dizer sempre o contrário. O assassino vai clamar por justiça, na língua do futuro. O racista vai exigir seus direitos, na língua do futuro. O fascista será o porta-voz da democracia, na língua do futuro. O lobo na pele de cordeiro, na língua do futuro. O ódio em nome do amor, a morte pela vida, na língua do futuro.

    Na China, quando nasce homem, o nome é sempre atributo de bicho: valente, forte, bravo. Já mulher nasce com nome de flor. De flor ou de planta.

    Os colunistas? Imbecis? Acha? Acha fácil? Ah, é? Basta o quê? Reproduzir os preconceitos do leitor? É o que o senhor acha. Irresponsáveis? E por que não escreve, reclamando? Pode, claro! Manda demitir. Cria um blog! Quem manda em jornal e em revista semanal é o leitor. Não sabia? O próprio jornal. E as revistas. Colunista só fica se o leitor quiser. Lei da oferta e da demanda.

    Aposto que o senhor não sabe que James Joyce é best-seller na China. É! Ulysses vendeu oitenta e cinco mil exemplares na China. Quando é que isso ia acontecer aqui? Eu? Não sei. Não li. É um negócio grego. Eu não ia dizer nada, mas não dá pra segurar.

    O homem é o único animal que tem consciência de que sua reprodução é um suicídio e mesmo assim continua a se reproduzir, não pode parar.

    A China tem mais de um bilhão e trezentos milhões de habitantes. Imagine se não tivessem controle de natalidade! Chinês quer ter filho. Na verdade, todo mundo quer ter filho, mas chinês quer muito mais — e quer ter filho homem. E, de tanta gente querendo ter filho homem, acaba só nascendo mulher! É sempre assim. Deus é o maior espírito de porco que eu conheço. Quando ela nasceu, a mãe já tinha duas filhas! Já estava mais que fora da lei. Já tinha ultrapassado sua cota de erro. Mas não ia parar enquanto não tivesse um filho. É, o senhor vai ver quando eles invadirem. Chinês é teimoso. E se gente não vale nada na China, mulher muito menos. Porque tem demais.

    Para aumentar seu saber, escute o que dizem os outros. Xenofonte (c. 430-355 a.C.)     Só ouvimos o que escutamos e só escutamos o que nos interessa. Provérbio xuliaká, língua desaparecida ao expirar o último xuliakáfono, em 9 de fevereiro de 2013.

    brasileiro, com suor e sangue. E aqui não tem sangue. Todo mundo nasce brasileiro, inocente, sem memória, sem educação, sem peso, sem luta, sem sangue. País light, da miscigenação. Sem racismo.

    Na língua do futuro, o senhor vai poder dizer o que quiser, sem consequência, nem responsabilidade, nem contradição.

    Todo mundo nasce brasileiro, inocente, sem memória, sem educação, sem peso, sem luta, sem sangue. País light, da miscigenação. Sem racismo.

    O fascista será o porta-voz da democracia, na língua do futuro. O lobo na pele de cordeiro, na língua do futuro. O ódio em nome do amor, a morte pela vida, na língua do futuro.

    Olhe, eu também não sabia e agora já sei. E é por isso que tudo o que o senhor disser não vai valer mais a pena ser dito na língua do futuro. Nenhuma contradição. O senhor vai acabar dizendo que todo mundo fala a mesma língua e que cada um entenda o que quiser. Vai acreditar nisso. Que tudo é igual e equivalente. Mas, no fundo, o que vai dizer é outra coisa, o contrário, na língua do futuro. Uma palavra pela outra, na língua do futuro. A língua do futuro vai dizer sempre o contrário. O assassino vai clamar por justiça, na língua do futuro.

    Então, é um diálogo de surdos. Só um decide o que quer ouvir e o que o outro vai dizer.

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